por Rangel Cerimonialista
O tempo é o grande construtor da história. É ele quem testemunha os sonhos, as lutas, as perdas e as conquistas de um povo que aprendeu a transformar a própria força em colheita. E assim foi escrita a trajetória da Vila Falcão: com mãos calejadas pelo trabalho, pés firmes sobre a terra e corações alimentados pela esperança.
Hoje celebramos 30 anos de criação da Vila Falcão. Trinta anos de resistência, coragem e pertencimento. Trinta anos de uma história construída por homens e mulheres que não esperaram caminhos prontos, mas abriram suas próprias estradas. Que não receberam facilidades, mas transformaram desafios em oportunidades.
A Vila Falcão nasceu da luta pela terra e da certeza de que ela deve cumprir sua função mais nobre: produzir alimento, gerar renda e garantir dignidade para quem nela trabalha.
Formada pelo complexo dos Projetos de Assentamento e seus primeiros presidentes: Atanásio (Adonildo Felix), Dona Eunice ( Antônio Filho), Marcos Freire (Goiano), e Padre Josimo (José Alves), a comunidade tornou-se um dos maiores símbolos da agricultura familiar do Bico do Papagaio. Hoje, o complexo possui capacidade para 326 famílias, que encontraram na terra a oportunidade de construir suas histórias e criar raízes.
Essa caminhada não foi fácil.
Ela começou com a determinação de homens e mulheres que acreditaram quando tudo ainda era apenas sonho. Entre eles, o saudoso Luiz Apagapito, cuja liderança foi fundamental nos primeiros passos dessa jornada. Ao seu lado estiveram Henrique lopes, Dito Pescador, Luiz Rodrigues, pastor Messias, Manoel Praxedes, o querido Piaba, Adelson Felix ,e tantos outros desbravadores que hoje são cidadãos do céu, mas permanecem vivos na memória e no coração deste povo.
A história também é marcada pela força das mulheres pioneiras. Mulheres como Losa, Delsa, Tânia Diretora, Conceição do Henrique, Dora do Coló e em memória Dona Jovenília Alves e Albina Barbosa, símbolo da coragem feminina que ajudou a erguer esta comunidade. Mulheres que enfrentaram as dificuldades da roça, criaram seus filhos, sustentaram suas famílias e ajudaram a construir o futuro da Vila Falcão.
Não podemos esquecer daqueles que dedicaram suas vidas ao cuidado da comunidade, como Panga, agente comunitário de saúde que serviu seu povo com dedicação e amor, deixando um legado de solidariedade e compromisso.
A memória da Vila Falcão também guarda momentos de dor. Entre eles, a trágica perda de Lázaro, filho do senhor Dito, uma lembrança que reforça a fragilidade da vida e a importância da união que sempre caracterizou esta comunidade.
Ao longo dos anos, lideranças comunitárias surgiram e assumiram a missão de representar o povo. Coló, Luiz do Falcão, Roxa e tantos outros escolhidos pelo voto popular deixaram e estão fazendo suas contribuições e seus exemplos para as novas gerações, mostrando que servir à comunidade é um compromisso que ultrapassa mandatos e permanece na história.
A Vila Falcão é fruto de um dos períodos mais importantes da história brasileira: a Reforma Agrária. Um processo que levou esperança a milhares de famílias e transformou a realidade de quem sonhava apenas com um pedaço de chão para trabalhar.
Nesse processo, a atuação do INCRA foi decisiva para a criação e consolidação dos assentamentos que mudaram a vida de tantas pessoas. O Assentamento Santa Gertrudes entrou para a história como o maior assentamento do Bico do Papagaio, tornando-se referência de organização e resistência.
Foi uma transformação profunda. Onde antes havia conflitos pela posse da terra, surgiram comunidades organizadas. Onde existiam incertezas, nasceram escolas, igrejas, associações e famílias que fincaram raízes.
A terra deixou de ser motivo de disputa para se tornar instrumento de desenvolvimento, cidadania e paz. Os pequenos agricultores passaram a ter a oportunidade de cultivar sua própria produção, construir seu patrimônio e viver com dignidade, sem carregar os estigmas que por tanto tempo marcaram os trabalhadores rurais.
Os desafios foram muitos. Houve períodos de seca, dificuldades econômicas, perdas e obstáculos que pareciam impossíveis de superar. Mas o povo da Vila Falcão jamais aprendeu a desistir. Aprendeu, sim, a recomeçar.
Cada casa construída, cada estrada aberta, cada lavoura cultivada, cada criança que estudou e cada jovem que decidiu permanecer nesta terra representam vitórias conquistadas coletivamente.
Celebrar os 30 anos da Vila Falcão é muito mais do que comemorar uma data. É honrar a memória dos pioneiros. É agradecer aos que permaneceram firmes. É reconhecer os que partiram deixando seus exemplos e suas histórias. É valorizar aqueles que continuam acreditando no potencial desta comunidade.
Porque a verdadeira riqueza da Vila Falcão não está apenas na terra fértil ou nas colheitas abundantes.
Está nas pessoas.
Está na coragem dos pioneiros.
Está na força das mulheres.
Está na fé que sustentou gerações.
Está na união de um povo que transformou um sonho coletivo em realidade.
Que as futuras gerações nunca esqueçam daqueles que chegaram primeiro, enfrentaram as dificuldades e abriram os caminhos que hoje percorremos.
Parabéns, Vila Falcão, pelos seus 30 anos de história.Que as sementes plantadas pelos pioneiros continuem florescendo, produzindo não apenas alimento, mas também esperança, dignidade, pertencimento e futuro para todos os filhos desta terra.
Essa versão está estruturada para leitura solene em cerimônia, com tom histórico, emocional e institucional, valorizando a Reforma Agrária, os pioneiros e os 30 anos da Vila Falcão.
Parabéns!
